Nossa Sociedade é Nosso Carma
Por ricardo • 10 nov 2011 • Categoria: Consumo, Filosofando, Prática • 1 Comentário »
O conceito de Carma, fundamental para muitas religiões e filosofias orientais, já foi adotado pelo ocidente e está presente em nosso dia-a-dia.
Não tenho a pretensão de analisar, neste texto, o ponto de vista religioso do conceito de Carma, porém gostaria de propor uma abordagem pragmática desta ideia que parece ser muito útil para nossa sociedade.
Muitos de nós utilizamos a interpretação, emprestada da física, de “Ação e Reação” ou “Causa e Efeito”, para explicar este conceito, da seguinte forma: “Para toda ação existe uma reação de força equivalente em sentido contrário”.
Para muita gente, entretanto, Carma é algo ou alguém que temos que suportar por termos feito algo de ruim, no passado. “Esse é meu Carma” – muitos dizem…
Eu gosto muito da interpretação que diz que “Carma é uma semente que plantamos e que vai nos render frutos (positivos ou negativos), no futuro”.
A palavra Carma tem origem na língua sânscrita e significa “AÇÃO“.
Partindo do princípio que as palavras ancestrais sempre carregavam um significado mais amplo e sistêmico (holístico), podemos intuir que ela inclua tanto o ato de agir, como todo o desdobramento desta ação e, inclusive, a rede de eventos que a possibilitaram ou nos conduziram a ela.
Enxergando por este prisma, podemos entender que cada atitude que tomamos produz uma reação em cadeia criando ou fortalecendo relações entre diversos elementos do sistema.
Por exemplo, quando consumimos determinado produto, fortalecemos as relações que possibilitaram que este produto chegasse às nossas mãos. Dentro destas relações, podemos citar a forma como os recursos foram extraídos da natureza, o modelo de trabalho ao qual são submetidas as pessoas que produzem este bem, a forma que este produto foi trazido até nós, as possibilidades de reaproveitamento dos recursos utilizados em sua fabricação, entre muitas outras relações socioambientais que fazem parte desta rede.
O conceito de Carma não se restringe as nossas ações de consumo. Quando damos aquele dinherinho para que o guarda nos libere de uma blitz na estrada (o chamado “cafezinho”) ou quando queremos “agilizar” um processo normalmente lento, também estimulamos a construção de estruturas, nesta rede, que perpetuam este comportamento.
Este conceito vale, igualmente, para ações positivas. Quando optamos por consumir produtos agrícolas orgânicos, familiares e locais, incentivamos este tipo de produção, geramos renda no campo evitando o êxodo rural, desestimulamos a existência dos atravessadores, ficamos menos doentes, e assim seguido por uma explosão de eventos positivos iniciados por nossa ação.
Portanto, analisando este cenário de forma mais ampla, compreendemos que o sistema como um todo, se configura como um reflexo de nossas ações (Carma). Nossa sociedade, portanto, é resultado do carma produzido por todos nós. Podemos, então, dizer que nossa sociedade é “nosso Carma”. Somos responsáveis por ela e, portanto, podemos remodelá-la a partir da constante produção de Carma positivo.
Mas, como vimos anteriormente, para produzir Carma positivo não basta ter uma ação positiva. Temos que nos preocupar com os eventos que a seguirão. Muitas vezes optamos por uma atitude que consideramos benéfica, mas ela acaba produzindo conexões indesejadas, por não conseguirmos enxergar o processo claramente, seja pela sutileza destas conexões, seja pela distância que estamos de onde elas acontecem. Nestes casos o “positivo” se torna “negativo” durante o processo.
Mas como posso me responsabilizar por algo tão complexo? Optando pelos processos mais simples.
Na minha cidade, tenho a opção de comprar alimentos orgânicos em uma grande rede de supermercados ou em uma rede de produtores e consumidores locais. Sem me armar de pré-julgamentos eu diria que a maior diferença entre estas duas opções é a complexidade inerente aos seus processos.
A cadeia de eventos gerada pela opção local é muito mais palpável, enquanto o longo processo da grande rede de supermercados é quase intangível (produção, comercialização, transporte, distribuição, atendimento, etc).
Analisando desta forma, prefiro escolher os produtos orgânicos da rede local, pois me permite acompanhar todas as fases do processo.
Portanto, manter a cadeia de eventos de suas ações dentro de um raio possível de “enxergar” é uma forma viável de nos responsabilizarmos pelo Carma produzido.
Na verdade, este é só um dos aspectos positivos da chamada re-localização de ações, pois estes processos mais simples e localizados criam relações muito mais intimas entre as pessoas, e entre as pessoas e a natureza. São relações ricas em experiências que é a matéria prima fundamental na construção de estruturas ainda mais positivas.
Você já parou para pensar no Carma que está produzindo?



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