Consumo consciente como exercício de cidadania
Por ricardo • 8 fev 2011 • Categoria: Blogagem Coletiva, Consumo, Filosofando • 8 Comentários »
REEDIÇÃO DO POST PUBLICADO EM 17 de DEZEMBRO de 2008…
Quando o blog “A vida como a vida quer” divulgou a Blogagem Coletiva sobre Consumo Consciente, eu fiquei muito animado. Considero este assunto extremamente importante, pois entendo que, por meio de nossas escolhas de consumo, efetivamente, transformamos o mundo à nossa volta.
É comum ouvirmos que o voto é a expressão máxima do exercício da cidadania. Que o voto é a ferramenta mais poderosa nas mãos do cidadão comum. Não discordo completamente destas afirmações, porém, considero que nossas escolhas de consumo constituem uma ferramenta mais efetiva.
Durante as eleições, destinamos (ou deveríamos destinar) nossos votos a aqueles candidatos que consideramos (baseado em seu histórico, suas promessas, relações políticas, etc…) mais capazes de promover as mudanças que achamos importante para nossa comunidade (país, estado, cidade, planeta, etc…).
Quando elegemos um candidato, transferimos nosso poder de escolha (política). Ele será nosso representante nas decisões que afetarão nossa comunidade, durante os próximos 4 anos. Se, durante este período, este político decidir deixar de nos representar (pois mudou suas opiniões, ou mentiu sobre elas), teremos o poder de rejeitá-lo, nas próximas eleições (daqui a 4 anos). Claro que, para isso, precisamos lembrar em quem votamos, o que não é muito comum.
Quando consumimos um determinado bem (produto, serviço ou informação), estimulamos, em primeira instância, sua permanência no mercado. Estimulamos, também, uma rede de processos sócio-ambientais, relacionadas ao seu ciclo de vida (produção, distribuição, consumo, descarte, entre outros) que, efetivamente, transformam a comunidade em que vivemos (localmente e/ou globalmente). Portanto, da mesma forma que o voto, nossas escolhas de consumo têm um poder transformador sobre a sociedade. Mas, diferentemente do voto, este poder pode ser exercido várias vezes ao dia. Se a instituição responsável pela produção do bem, não tem os valores e o comportamento que achamos corretos, podemos rejeitá-la na próxima ida ao mercado, mudando de canal ou estimulando outras pessoas a não consumi-la.
- Qual seria o impacto sobre o meio-ambiente se, efetivamente, reduzíssemos a utilização de água, luz e outros recursos, dentro da nossa casa?
- Qual seria o impacto na linha produtivas das empresas se, efetivamente, nos recusássemos a comprar de quem polui, utiliza de trabalho infantil ou abusa de seus funcionários?
- Qual seria a reação de quem produz com baixa qualidade, com alto grau de obsolescência e com prejuízos sócio-ambientais se, efetivamente, nos preocupássemos em consumir bens de consumo duráveis e sustentáveis?
- Qual seria o impacto sobre as oportunidades no campo, na segurança alimentar da comunidade, na saúde pública, nas decisões políticas sobre reforma agrária, no preço do alimento se, efetivamente, consumíssemos de produtores locais e orgânicos, por exemplo?
- Do que viveriam pessoas e instituições corruptas que encurtam ou desviam os procedimentos legais se, efetivamente, não utilizássemos seus serviços (como a propina que acelera procedimentos burocráticos ou nos tira de situações comprometedoras)?
- Qual seria o reflexo sobre a violência se, efetivamente, deixássemos de comprar produtos roubados e pirateados ou de utilizar as chamadas “drogas leves”, que financiam o crime organizado?
- E, por fim, qual seria o impacto sobre nossa sociedade se, efetivamente, percebêssemos que, a partir de nossas decisões de consumo, que temos que tomar várias vezes ao dia, temos o poder de reformar a sociedade em que vivemos?
Portanto, acredito que o ato de consumir é o verdadeiro poder transformador do cidadão e, como tal, deve ser exercido da forma mais racional e consciente possível.
Para deixar mais claro o papel fundamental do ciclo de vida de um bem de consumo, na transformação de nossa sociedade, assista o documentário “A História das coisas” (de Annie Leonard) ou acesse o site do instituto Akatu (contém o melhor artigo sobre consumo consciente que eu já li).
Mas o que é o consumo consciente? Consumo consciente é o equilíbrio entre a satisfação pessoal e a sustentabilidade.
Um bem sustentável se entende por um bem com um ciclo de vida ambientalmente correto, socialmente justo e economicamente viável [vide Akatu - Consumo Consciente]. Portanto, consumir conscientemente é estar sempre atento a estes aspectos.
É muito importante notar que a decisão de consumo, na maioria das vezes, acontece em frações de segundo e que, normalmente, a razão tem pouca (ou nenhuma) participação neste processo, como afirma uma pesquisa apresentada em um artigo recente da revista Veja. Esta pesquisa aponta, também, as estratégias utilizadas pelos fornecedores para estimular (com apelo emocional – impulsividade, emoção, sentidos) nossa decisão de compra (aromas artificiais, sensação de negócio imperdível, o status que este produto proporciona, etc…etc…etc…).
A obsolescência é outra arma muito utilizado no mercado e, talvez, seja o principal mecanismo de consumo inconsciente (obsolescência planejada – o produto é feito para durar pouco; obsolescência aparente – tem sempre um modelo novo deixando o seu produto, recém adquirido, ‘fora de moda’).
Porém, para que o consumo seja consciente temos a difícil (porém fundamental) tarefa de exercitar a razão durante todo este processo.
Para exercer este poder, com liberdade, devemos tomar o controle sobre nossas decisões (sua decisão, seu julgamento, o que você quer versus o que eles querem que você queria).
Ah…Não podemos esquecer que o ato de consumir menos (consumindo somente o que é necessário, por exemplo) é, talvez, a mais eficiente entre as opções de consumo consciente. Para tanto, Repense, Reduza, Reutilize e Recicle.
Apesar da grande importância das conferências, tratados e protocolos internacionais (Kyoto, COP14, RIO92,…) e suas metas, penso que devemos deixar o lugar de espectador e assumir o papel de protagonista desta história. Vamos criar nossas metas.
Chega de esperar as grandes metas coletivas (elas devem refletir nossas pequenas metas pessoais)! Chega de esperar uma solução vinda de cima!
Nós podemos começar a mudar, AGORA!
Por mais que nossa sociedade insista em passar a impressão de que não somos capazes disso, acredite, somos os únicos com este poder.
Quem sabe, daqui a alguns anos, não seremos mais chamados de Sociedade de Consumo, mas seremos lembrados como a Sociedade de Abundância. E que esta abundância seja, principalmente, de felicidade.
Referências:
1 – A História das coisas – Annie Leonard;
2 – Instituto Akatu;
3 – “Anatomia do consumo” de Camila Pereira e Marcos Todeschini – Revista Veja – 17 de dezembro de 2008.


