'Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente.' - J. Krishnamurti

Consumo local e agroecológico – saúde e solidariedade são os pratos do dia (parte 2)

Por ricardo • 16 mai 2009 • Categoria: Consumo, Filosofando, Prática4 Comentários »

Continuando o post anterior, eu gostaria de abordar as bases estruturais e as dificuldades enfrentadas, discutidas no evento “Troca de experiências entre alianças urbano-rurais”, promovido pelo SESC-Piracicaba.

Sobre as redes de produção e consumo…

As bases estruturais, comuns, entre as redes de produção e consumo de produtos locais agroecológicos, apresentadas neste debate, foram:

  • Formação de rede de produtores locais (fornecedores);
  • Formação de núcleo de consumos (consumidores);
  • Respeito aos princípios da agroecologia, da economia solidária, do comércio justo e do consumo responsável;

Muitos aspectos deste debate me chamaram atenção e, aqui, destaco alguns deles:

  • Muitos produtores da rede não são certificados como produtores orgânicos (pelo custo da certificação, acesso às informações, entre outros motivos). Porém, durante o processo de incubação destes produtores, eles são examinados, instruídos e monitorados, garantindo, assim, a boa procedência de seus produtos;
  • Achei muito interessante um comentário de uma das produtoras rurais que fazem parte da rede de Piracicaba (correção: esta produtora se chama Ana , faz parte da rede de São Paulo e pertence ao projeto Mãos e Mentes de Parelheiros): “Não é porque você não estuda que você vai para a roça, para ir para a roça você tem que estudar” – mostrando sua preocupação com a reciclagem de conceitos, o que é fundamental para a mudança da produção tradicional para a agroecológica;
  • Ficou muito claro, por diversas declarações, que os assuntos agroecologia e solidariedade, são inseparáveis no contexto destas redes;

Algumas das dificuldades…

Algumas dificuldades para manter e ampliar o acesso e a penetração destas redes em nossa sociedade foram discutidas durante o evento. Destaco algumas delas:

  • Ainda não existe uma organização técnica entre estes produtores, e isso é algo que é almejado pela rede de Piracicaba, formada, principalmente, por profissionais de agronomia;
  • O problema de percepção do consumidor. Existe uma idéia comum de que os produtos orgânicos são artigos de luxo. Isso acontece muito porque os produtos orgânicos que temos contato, no dia-a-dia, são aqueles na prateleira do supermercado. Os preços, formados nesta situação, são conseqüência de uma seqüência interminável de atravessadores e custos de transporte e armazenagem. Diferentemente, os produtos agroecológicos locais, comprados diretamente do produtor, têm os seus preços compostos pelo preço do produtor e um elemento de manutenção das redes de distribuição (baseados no conceito da Economia Solidária). Os preços dos produtos orgânicos da rede, portanto, equivalem ao preço dos produtos tradicionais.
  • O problema da expectativa do consumidor (I). Vivemos em uma sociedade que valoriza a estética sobre a saúde. A fantástica aparência dos produtos tradicionais, muitas vezes alcançada por meio da utilização de grande número de substâncias tóxicas, é um atrativo poderoso, aos olhos do consumidor. Alguns produtores optam pela produção tradicional e a utilização de agrotóxicos para adequar sua produção aos padrões de “qualidade” definidos pela mídia e pelo consumidor;
  • O problema da expectativa do consumidor (II). Perdemos a noção dos ciclos naturais. Achamos que a natureza produz qualquer coisa, a qualquer momento, em qualquer quantidade.  A produção agroecológica respeita estes ciclos, portanto, não pode oferecer todos os produtos que o consumidor deseja, na hora que deseja;
  • No caso de Piracicaba, existe uma carência enorme de produtores agroecológicos locais, para formação das redes de produção. Conseqüentemente, a oferta e diversidade de produtos, comercializados pelas redes, ainda são muito pequenas;

Opinião 1…

Gostaria de incluir mais um aspecto que dificulta a adoção de um consumo responsável, destes produtos. Percebi, durante o evento e pela experiência como consumidor da rede, uma tendência à crença de que o consumidor destes produtos tenha que ser um consumidor consciente, engajado e “mente aberta”. Não discordo que, para adotar estas práticas, o sujeito deva estar aberto a experiências. Porém, não acho que estas iniciativas devam mirar somente este perfil. Aliás, eu acho que elas devem privilegiar ações para atingir o “consumidor inconsciente” e cheio de preconceitos (educando e criando estratégias para isso). Pois esta é a grande massa e, se apontarmos para ela, vamos ter uma grande chance de atingir todos os públicos. Digo isso pois deixei de consumir alguns produtos da rede (e consequentemente, comecei a comprar nas grandes redes) pois as dúvidas que enviei, sobre conservação do produto entre outras questões, não foram respondidas. Se queremos formar uma rede de consumidores conscientes temos que tratar muito bem o consumidor. Pois ser inconsciente é MUITO mais fácil.

Opinião 2…

Quanto à falta de diversidade e oferta de produtos orgânicos, eu gostaria de deixar uma idéia no ar… O conceito de horticultura comunitária (horta doméstica e coletiva, urbana ou peri-urbanas, em comunidades carentes) não poderia ser uma solução perfeita para este problema? Além de aumentar a oferta e a diversidade de produtos agroecológicos causaria um enorme efeito social, aumentando a segurança alimentar e a renda destas comunidades carentes.

Você acha que horticultura urbana agroecológica é uma utopia? Então conheça o caso de Cuba, que precisou se adaptar totalmente, após a queda da União Soviética, no chamado Período Especial. Seguem alguns textos e vídeos sobre este assunto:

O exemplo de Cuba
Agroecologia en Cuba (em espanhol): parte 1, parte 2 e parte 3
Urban Food Growing in Havana, Cuba (em inglês)

Para saber mais…

Para saber mais sobre este assunto ou se tornar um consumidor mais saudável e solidário, seguem os dados das redes presentes no evento:

Sementes da Paz (São Paulo):
http://www.moradadafloresta.org/content/blogsection/9/39/
http://atitudeeco.com/site/?page_id=302

Rede de Produção e Consumo Solidário (Piracicaba):
http://www.terramater.org.br/rede

ricardo é analista de sistemas, praticante de Kung Fu, ambientalista EM FORMAÇÃO em processo de 'desentortamento' de valores
Envie um e-mail ao autor | Todos os posts de ricardo

4 comentários »

  1. Olá Ricardo,

    sua idéia de promover hortas urbanas comunitárias como solução para o problema da falta de acesso de comunidades carentes a alimentos ecológicos é realmente muito boa e faz todo sentido. Vejo aí uma ótima iniciativa para influenciar políticas públicas.

    Sobre você ter parado de consumir os alimentos da rede de Piracicaba por não ter tido suas perguntas repondidas acho totalmente compreensível, mas não vejo o que isso tenha a ver com ser ou não “consciente”. Talvez possa ter sido falha da pessoa responsável pela parte de comunicação. De qualquer forma, talvez a Rede pudesse receber uma segunda chance sua, quem sabe?!

    A produtora que fez o comentário sobre a necessidade de estudar para ter de ir à roça é a Ana do Projeto Mãos e Mentes de Parelheiros. Ela e sua família produzem mel. Eles integram a Rede de São Paulo, não a de Piracicaba. O comentário dela foi mesmo muito bom!

    Parabéns pelo blog e pela iniciativa de escrever e comentar o evento promovido pelo SESC.

    Um abraço, Roberto.

  2. Olá Roberto, obrigado pelo comentário!

    Na verdade, não deixei de consumir os alimentos da rede, somente o produto que eu não soube como conservar.

    Abraços,
    Ricardo

  3. [...] Complementar a oferta de produtos orgânicos nas redes locais de consumo consciente (vide “Opinião 2″ no post sobre “Consumo local e agroecológico”); [...]

  4. Boa tarde Ricardo; resido em Ribeirão Preto com a minha família há 03 meses, vindo da capital. Aqui estamos iniciando a construção de uma loja comercial para comercializar, entre outros itens, alimentos organicos. Fizemos recentemente contato com a Associação Agroecologica Terra Viva, uma ONG que congrega produtores, consumidores e comerciantes. Visitamos o sítio de um casal de produtores e esta relação de poder acompanhar de onde “sai ” o alimento que comemos é muito positiva. Concordo com você nos aspectos de precisar desenvolver estratégias junto aos consumidores para aumentar a confiança e os produtos vendidos.
    Até.

Deixe um comentário