“Não somos ricos pelo que temos, mas sim pelo que não precisamos ter” - Emmanuel Kant

Consumo consciente como exercício de cidadania

Por ricardo • 17 dez 2008 • Categoria: Blogagem Coletiva, Consumo, Filosofando7 Comentários »

Quando o blog “A vida como a vida quer” divulgou a Blogagem Coletiva sobre Consumo Consciente, eu fiquei muito animado. Considero este assunto extremamente importante, pois entendo que, por meio de nossas escolhas de consumo, efetivamente, transformamos o mundo à nossa volta.

É comum ouvirmos que o voto é a expressão máxima do exercício da cidadania. Que o voto é a ferramenta mais poderosa nas mãos do cidadão comum. Não discordo completamente destas afirmações, porém, considero que nossas escolhas de consumo constituem uma ferramenta mais efetiva.

Durante as eleições, destinamos (ou deveríamos destinar) nossos votos a aqueles candidatos que consideramos (baseado em seu histórico, suas promessas, relações políticas, etc…) mais capazes de promover as mudanças que achamos importante para nossa comunidade (país, estado, cidade, planeta, etc…).
Quando elegemos um candidato, transferimos nosso poder de escolha (política). Ele será nosso representante nas decisões que afetarão nossa comunidade, durante os próximos 4 anos. Se, durante este período, este político decidir deixar de nos representar (pois mudou suas opiniões, ou mentiu sobre elas), teremos o poder de rejeitá-lo, nas próximas eleições (daqui a 4 anos). Claro que, para isso, precisamos lembrar em quem votamos, o que não é muito comum.

Quando consumimos um determinado bem (produto, serviço ou informação), estimulamos, em primeira instância, sua permanência no mercado. Estimulamos, também, uma rede de processos sócio-ambientais, relacionadas ao seu ciclo de vida (produção, distribuição, consumo, descarte, entre outros) que, efetivamente, transformam a comunidade em que vivemos (localmente e/ou globalmente). Portanto, da mesma forma que o voto, nossas escolhas de consumo têm um poder transformador sobre a sociedade. Mas, diferentemente do voto, este poder pode ser exercido várias vezes ao dia. Se a instituição responsável pela produção do bem, não tem os valores e o comportamento que achamos corretos, podemos rejeitá-la na próxima ida ao mercado, mudando de canal ou estimulando outras pessoas a não consumi-la.

  • Qual seria o impacto sobre o meio-ambiente se, efetivamente, reduzíssemos a utilização de água, luz e outros recursos, dentro da nossa casa?
  • Qual seria o impacto na linha produtivas das empresas se, efetivamente, nos recusássemos a comprar de quem polui, utiliza de trabalho infantil ou abusa de seus funcionários?
  • Qual seria a reação de quem produz com baixa qualidade, com alto grau de obsolência e com prejuízos sócio-ambientais se, efetivamente, nos preocupássemos em consumir bens de consumo duráveis e sustentáveis?
  • Qual seria o impacto sobre as oportunidades no campo, na segurança alimentar da comunidade, na saúde pública, nas decisões políticas sobre reforma agrária, no preço do alimento se, efetivamente, consumíssemos de produtores locais e orgânicos, por exemplo?
  • Do que viveriam pessoas e instituições corruptas que encurtam ou desviam os procedimentos legais se, efetivamente, não utilizássemos seus serviços (como a propina que acelera procedimentos burocráticos ou nos tira de situações comprometedoras)?
  • Qual seria o reflexo sobre a violência se, efetivamente, deixássemos de comprar produtos roubados e pirateados ou de utilizar as chamadas “drogas leves”, que financiam o crime organizado?
  • E, por fim, qual seria o impacto sobre nossa sociedade se, efetivamente, percebêssemos que, a partir de nossas decisões de consumo, que temos que tomar várias vezes ao dia, temos o poder de reformar a sociedade em que vivemos?

Portanto, acredito que o ato de consumir é o verdadeiro poder transformador do cidadão e, como tal, deve ser exercido da forma mais racional e consciente possível.

Para deixar mais claro o papel fundamental do ciclo de vida de um bem de consumo, na transformação de nossa sociedade, assista o documentário “A História das coisas” (de Annie Leonard) ou acesse o site do instituto Akatu (contém o melhor artigo sobre consumo consciente que eu já li).

Mas o que é o consumo consciente? Consumo consciente é o equilíbrio entre a satisfação pessoal e a sustentabilidade.
Um bem sustentável se entende por um bem com um ciclo de vida ambientalmente correto, socialmente justo e economicamente viável [vide Akatu - Consumo Consciente]. Portanto, consumir conscientemente é estar sempre atento a estes aspectos.

É muito importante notar que a decisão de consumo, na maioria das vezes, acontece em frações de segundo e que, normalmente, a razão tem pouca (ou nenhuma) participação neste processo, como afirma uma pesquisa apresentada em um artigo recente da revista Veja. Esta pesquisa aponta, também, as estratégias utilizadas pelos fornecedores para estimular (com apelo emocional – impulsividade, emoção, sentidos) nossa decisão de compra (aromas artificiais, sensação de negócio imperdível, o status que este produto proporciona, etc…etc…etc…).
A obsolência é outra arma muito utilizado no mercado e, talvez, seja o principal mecanismo de consumo inconsciente (obsolência planejada – o produto é feito para durar pouco; obsolência aparente – tem sempre um modelo novo deixando o seu produto, recém adquirido, ‘fora de moda’).
Porém, para que o consumo seja consciente temos a difícil (porém fundamental) tarefa de exercitar a razão durante todo este processo.

Para exercer este poder, com liberdade, devemos tomar o controle sobre nossas decisões (sua decisão, seu julgamento, o que você quer versus o que eles querem que você queria).

Ah…Não podemos esquecer que o ato de consumir menos (consumindo somente o que é necessário, por exemplo) é, talvez, a mais eficiente entre as opções de consumo consciente. Para tanto, Repense, Reduza, Reutilize e Recicle.

Apesar da grande importância das conferências, tratados e protocolos internacionais (Kyoto, COP14, RIO92,…) e suas metas, penso que devemos deixar o lugar de espectador e assumir o papel de protagonista desta história. Vamos criar nossas metas.
Chega de esperar as grandes metas coletivas (elas devem refletir nossas pequenas metas pessoais)! Chega de esperar uma solução vinda de cima!
Nós podemos começar a mudar, AGORA!

Por mais que nossa sociedade insista em passar a impressão de que não somos capazes disso, acredite, somos os únicos com este poder.

Quem sabe, daqui a alguns anos, não seremos mais chamados de Sociedade de Consumo, mas seremos lembrados como a Sociedade de Abundância. E que esta abundância seja, principalmente, de felicidade.

Referências:
1 – A História das coisas – Annie Leonard;
2 – Instituto Akatu;
3 – “Anatomia do consumo” de Camila Pereira e Marcos Todeschini – Revista Veja – 17 de dezembro de 2008.

ricardo é analista de sistemas, praticante de Kung Fu, ambientalista EM FORMAÇÃO em processo de 'desentortamento' de valores
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7 comentários »

  1. Boa tarde Ricardo,
    Eu vejo mais o verdadeiro poder transformador do cidadão não so no consumo mas também nas praticas gerais do dia dia. E a questão crucial é o acesso ao conhecimento mas básico que seja… Veja aqui uma tentativa para participar neste mudança de paradigma ;-) http://www.capibaribe.info o titulo do projeto se chama “Eu quero nadar no Capibaribe. E Você?”

  2. Olá Julien,

    Concordo com você! Porém, neste texto e no artigo do Instituto Akatu, a idéia de consumir não está restrita ao ato de comprar. Portanto, ações como economizar água e energia no banho, economizar água ao limpar a calçada com a vassoura, economizar luz em geral e até assistir a um programa na televisão, entre outras práticas gerais do dia a dia, também estão enquadradas como escolhas de consumo.

    Ah…também quero nadar no Capibaribe!!
    (muito legal a iniciativa do site, vou ler e recomendar!)

    Abraços

  3. Ricardo, você realmente filosofou sobre a ecologia, que creio seja o mot de seu blog. Gostei imensamente de seu enfoque e da forma como desenvolveu a idéia de que temos em mãos um poder imenso como consumidores, o poder de escolher o que é efetivamente bom para todos. Há quem diga que somos títeres do mercado publicitário, mas, como você, acredito que somos os reais detentores do poder.
    Obrigado por sua participação da blogagem e espero que possamos trocar mais idéias sobre permacultura, cidadania e outros temas que me parecem ser afinidades que temos.

  4. [...] Ecosofando li um texto que nos exorta ao exercício consciente da cidadania, falando no quanto nosso voto e [...]

  5. Olá Ricardo,

    Aqui é o Marcelo(Marcelinho), participei de um curso de Bioconstrução junto com você na ESALQ, lembra? Achei que tinha perdido seu contato…Felizmente não!

    Gostei muito do blog, da temática e da coerencia dos seus textos. Especificamente sobre o tema consumo, gostaria de ressaltar a importância do consumo de informações. Acredito que boa parte das informações veiculadas na mídia_aquelas disseminadas com maior abrangência, com destaque para a TV_ não nos servem para subsidiar a mudança de mundo que queremos. Adoraria ver um espaço no meio da novela da globo, entre uma propaganda da bombril e outra da avon, dizendo para reduzirmos o consumo de produtos de limpeza, ou cosméticos por exemplo; isso é obviamente IMPOSSÍVEL de acontecer. O que vemos é um estímulo para o consumo dos produtos \socio-ambientalmente corretos\! Sempre a reciclagem (que é uma indústria como qualquer outra) e nunca a redução!!!
    O ponto que quero levantar é: será que a mídia não faz com que as coisas continuem como estão? Será que não estamos sendo enganados ao comprar uma sacola retornável do wall-mart, acreditando que estamos fazendo a nossa parte?

    O buraco é mais em baixo…

    Abç
    Marcelinho

  6. [...] O mais polêmico: http://www.ecosofando.com.br/2008/12/17/consumo-consciente-como-exercicio-de-cidadania/ [...]

  7. Gostei muito do seu blog, parabéns.
    Só para espelhar como existe falta de consciencia ambiental vc sabe que existem empresas que acham que o plástico sendo usado ainda é pouco, então resolveram começar a usar cartões de visita de plástico.
    É ou não uma tremenda sacanagem com o meio ambiente?
    Eu se receber de alguem um cartão desses de plástico, devolvo na hora e se possível boicoto a empresa…
    Carreira

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